Sobre as meias-verdades que também são contadas para eles

Para acabar de vez com todos os mitos que envolvem as mulheres e o seu papel, é preciso que tantos outros mitos que atingem diretamente os homens sejam quebrados (e é por isso que feminismo não é somente em benefício apenas das mulheres, mas também dos homens e de toda a sociedade).

Certamente você já escutou de alguém que um determinado tema é “assuntos de menina”, enquanto outro é “assuntos de menino”. E qualquer coisa que fuja disso, é tido como anormal e estranho. Acontece que essas idéias não se encaixam mais tão perfeitamente com a nova dinâmica social e familiar desses nossos anos dois-mil-e-poucos. As relações de trabalho e familiar são completamente diferentes das que existiam quando alguns padrões de comportamento foram criados. Pelo visto, já está mais que na hora da gente deixar todas essas velhas idéias bem no fundo do baú de recordações das avós…

(i) As crianças precisam das mães”. É óbvio que colo e carinho de mãe é bom, mas colo e carinho, de uma forma geral, é bom e ponto. Crianças precisam de carinho, de cuidado e de atenção. Se for da mãe, ótimo, mas é ótimo também se for do pai, ou de alguém que a ame. Não importa. Esse pensamento penaliza demais mães que não podem estar sempre com os filhos e penaliza também pais que, não importa quão dedicados sejam, nunca serão vistos como suficientes para seus filhos.
(ii) “A função do homem é prover”. Atire a primeira pedra quem nunca torceu o nariz quando conheceu algum homem que ficava em casa cuidando dos filhos enquanto a mulher trabalhava. Atire a primeira pedra quem nunca achou “ok” um pai ser ausente, mas que achou “um monstro” uma mãe que chegava tarde do trabalho e não colocava os filhos para dormir. Eu nasci na década de 80 e cresci ouvindo meus pais fazerem comentários deste tipo. Hoje, recuso todos eles e me policio para que nunca, jamais, o senso comum me pegue desprevenida e faça com que eu fique calada perante comentários desse tipo. O mundo mudou e os arranjos familiares também. Se um casal decide que consideram que é melhor para a família, seja por um período de tempo ou por tempo indeterminado, que seja assim e que todos respeitem essa decisão.

(iii) Work-life balance é problema de mulher”. Isso pode ter funcionado muito bem com nossos pais e avós, que sempre aceitaram o papel de único provedor da família de forma resignada. Mas não acredito que os homens da geração Y, que cresceram ouvindo coisas como “faça o que te faz feliz”, aceitarão esse papel de forma tão resignada quanto seus ascendentes, abrindo mão de suas necessidades de lazer, família, saúde e amigos, apenas pela obrigação de prover. Manter o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, por mais cliché que seja, é uma questão de sanidade mental.

(iv) Flexibilidade é a solução”. Junto com todas as mentirinhas acima, muitos homens que realmente querem e acreditam numa nova ordem familiar, de tarefas e responsabilidades compartilhadas, acabam acreditando em um discurso corporativo em prol de jornadas mais flexíveis. Mas nada disso serve se essas políticas de RH forem apenas discursos vazios. Querendo parecer moderninhas e atrair jovens comprometidos, algumas empresas acabam criando inúmeras iniciativas, cada uma com o estrangeirismo mais bonito que o outro, mas que no final das contas, é sempre visto com desprezo pelos gestores (e, infelizmente, pelo próprio RH). Com isso, quem faz uso dessas políticas e acredita que isto é realmente uma boa prática, acaba preterido nas linhas de sucessão, mesmo que seus resultados não deixem nada a desejar em comparação com outros colegas sempre presentes (pelo menos, de corpo).

(v) “Trabalha melhor quem trabalha mais”. Como eu odeio essa idéia fixa!! Os brasileiros já são conhecidos como trabalhadores nada produtivos e esta idéia não traz nenhum benefício para melhorarmos nossa imagem. Pelo contrário… Principalmente no Brasil, as empresas deveriam focar seus esforços em aumentar a produtividade de seus funcionários e premiar os mais produtivos e não, necessariamente, os mais presentes.

Com essas cinco mentirinhas em mente, a lição mais importante de todas elas, para mim, é a de que o ambiente de trabalho não pode ficar confinado àquela velha idéia de 9h às 18h, e nem mesmo ao presenteísmo que esta idéia tradicional representa. As novas tecnologias e a nova noção de trabalho que a nossa geração vem trazendo não comporta mais isso.

Hoje, diferente de nossos pais e avós que só trabalhavam para sustentar a família, buscamos trabalhar com aquilo que nos define e que nos faz feliz. Trabalho e lazer se misturam. E-mails de trabalho chegam em nossos telefones a toda hora e independente de onde estejamos. Ler as notícias de sua área de interesse e se atualizar nas horas vagas não é mais visto como uma obrigação, mas como algo do interesse de cada um.

Num país desigual como o Brasil, infelizmente, isto ainda não é possível para todos, mas acredito que todos os millenials brasileiros gostariam de ter a oportunidade de realmente fazerem aquilo que gostam e, fazendo isso, o trabalho não vira mais um “estorvo”, mas sim algo que faz parte da vida e do que define cada um.

Gestores ou futuros gestores devem estar abertos para as mudanças no comportamento e nas dinâmicas das relações pessoais e de trabalho, usando o que de melhor a tecnologia provê, alterando estes velhos e ultrapassados paradigmas e criando novos conceitos e percepções, mais adequadas às dinâmicas que temos hoje.

Você também pode gostar de...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *