Sobre as meias verdades que enganam a gente

O mundo é cheio de “verdades”, principalmente quando o assunto é a SUA vida (vindo dos outros, claro). E essas “verdades” parecem se multiplicar quando você é mulher e está no início da carreira. Eu vivia numa luta interna constante porque, afinal, à medida que os anos iam passando, essas “verdades” que sempre nos contavam não condiziam muito com a realidade da vida. Será que era só EU a azarada?? Será que era só comigo que a vida vivia pregando peças e bagunçando todo o meu planejamento de vida toda hora com incontáveis imprevistos?

Até que no início deste ano, lendo um artigo no Linkedin Pulse (sempre boas leituras), comprei e comecei a ler “Unfinished Business“, escrito por Anne-Marie Slaughter, advogada internacional, analista de política externa, cientista social e ex-diretora do gabinete da Hillary Clinton quando esta era Secretária de estado dos EUA (pouca coisa). Naquele momento da minha vida foi tipo propaganda das Organizações Tabajara (nossa! tô velha!) e veio um “Seus ‘pobrema’ se acabaram”. Afinal, não! eu não era a única remando contra a maré, me recusando a repetir no trabalho um comportamento totalmente masculino para que eu pudesse ser considerada como alguma coisa com o mínimo de potencial pelos chefes (todos homens, claro). Eu não era doida em pensar que, se um dia tiver filhos, não vou querer “terceirizar” a criação e educação deles, sendo apenas uma figurante. Eu não era uma “feminista-revoltadinha-sem-razão” porque ficava revoltada quando escutava, numa reunião, um homem da outra parte falando para o diretor da minha empresa “até que enfim que você trouxe gente bonita para essa reunião”.

O livro é ótimo para perceber que feminismo não é uma questão exclusiva das mulheres, mas também dos homens, para percebermos que o que realmente precisamos é de uma mudança nos velhos padrões e costumes (para mulheres E para homens), e para pararmos, de uma vez por todas, de acreditar nessas meias-verdades que nos contam:

Você pode ter tudo na vida (trabalho e família) se você for comprometida com a sua carreira. Muita gente fala que dá para ter tudo na vida se você for altamente comprometida com a sua carreira. No entanto, a gente vai vendo, com o tempo, que trabalho é apenas uma das facetas importantes da nossa vida, mas não A única. Trabalhar apenas pelo trabalho e fracassar em todos os outros aspectos da vida não parece mais fazer tanto sentido…

Você pode ter tudo na vida se casar com a pessoa certa. Muita gente também fala que o mais importante é escolher o parceiro certo. Aquele que irá dividir as tarefas de casa com você fifty-fifty e que, assim, ambos irão ter a oportunidade para ascender ao topo de suas carreiras. Acontece que a vida NUNCA funciona tão fifty-fifty assim e, inevitavelmente, quem espera tanta certeza ficará desapontado.

Além disso, é preciso mudar a dinâmica da vida a dois também, em relação às tarefas domésticas. Se o homem continuar sendo visto como um mero “ajudante” nas tarefas domésticas, significa que o “titular” dessas tarefas ainda é a mulher. E isso não muda nada… É verdade que nem sempre vai dar para dividir tão lindamente igual, mas se cada casal já viver sabendo que as tarefas de casa são responsabilidade de todos, já é um bom começo.

Você pode ter tudo na vida se você seguir a sequência correta na vida. Por fim, é comum também ouvirmos que se vivermos “na sequência certa”, é possível ter tudo na vida. Se no início da sua carreira você for solteira e dedicar-se inteiramente à sua carreira, quando você casar e tiver filhos, provavelmente já estará no topo e poderá então se dedicar mais à família. Seria lindo, se a gente não tivesse que “remendar” os nossos planos mais do que gostaríamos. É um parente que fica doente e que precisa de um pouco mais de atenção. É o marido ou a esposa que recebe uma proposta de expatriação. É uma crise econômica e uma demissão repentina… Esse tal de Destino não pára de zombar da nossa cara e vive colocando imprevistos no nosso caminho. Se você tinha um planejamento de vida no início da sua faculdade, aposto que ele está compleeeeeetamente diferente agora (pois o meu está, com.ple.ta.men.te).

Além desses fatos inesperados que acontecem, o livro chama a nossa atenção para o enorme preconceito escondido nessa “lógica”. Isso porque quando a mulher finalmente chega no topo, linda, bom-sucedida, e aí sim decide ter filhos (como manda o bom planejamento convencional), dá de cara com o preconceito de que, não importa o resto todo que ela conquistou, ela virou MÃE. Não importa! A mulher pode ser poderosíssima, super reconhecida. Mas se ela virou mãe, parece que volta ao trabalho com isso tatuado na testa e que a cada quinze minutos irá largar todas as suas obrigações no trabalho para administrar a casa ou a vida dos filhos.

Esse “choque de realidade” é bom para a gente se tocar do que está realmente estranho na nossa sociedade e, inclusive, identificar certas sutilezas que acabam criando grandes preconceitos. E esse livro é cheio de “choques de realidade” para que a gente comece, aos poucos, a criar um mundo mais confortável para homens e mulheres.

 

(*) Este post foi originalmente publicado em 4 de julho de 2016. Desde este livro, eu nunca mais fui a mesma. Ainda bem. 

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